• 2017_11_20 - INSCER - Rodrigo Grassi-1239

O Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul e a PUCRS acabam de assinar um acordo de cooperação internacional com a Universidade do Texas – Health Science Center at Houston (EUA) para um estudo inédito no campo de pesquisa da dependência à cocaína tipo crack. Coordenado pelo pesquisador do InsCer e professor da Universidade, Dr. Rodrigo Grassi-Oliveira (ao centro na foto) e pelas pesquisadoras Dra. Joy Schimitz e Dra. Consuelo Walss-Bass da UTHealth, o estudo terá duração de cinco anos e possui três objetivos principais: promover o mapeamento genético de 1.000 usuários de crack e 1.000 controles (não usuários); avaliar o impacto da exposição à violência/estresse e como isso poderia “marcar” o DNA; e verificar se o vírus HIV poderia modificar o DNA dos usuários em regiões importantes para o funcionamento cognitivo e comportamental. O orçamento é de 2,6 milhões de dólares e é proveniente do National Intitute of Health (NIH) dos Estados Unidos. O InsCer e a PUCRS passam a ser uma das poucas instituições a contar com um investigador principal (PI) responsável por um grant R01 fora do solo americano. O R01 um dos mecanismos mais tradicionais utilizados pelo NIH para dar suporte a pesquisas inovadoras para promover a melhora da saúde humana.

De acordo com Grassi-Oliveira, o Developmental Cognitive Neuroscience Lab (laboratório que coordena) vem coletando sangue de usuários de cocaína tipo crack que se voluntariaram a ceder suas amostras para a criação de um grande biorepositório, contendo as duas mil amostras que serão avaliadas (incluindo controles). Na primeira etapa da pesquisa, o DNA inteiro de cada amostra de sangue será completamente “escaneado” em busca de alterações genéticas que possam estar associadas ao consumo de crack. Na segunda parte, os pesquisadores partem em busca de marcas no DNA associadas com a exposição à violência e estresse ao longo da vida do usuário. “Queremos investigar possíveis mudanças no DNA decorrentes dessa exposição que possam interferir nos padrões de consumo ”. Estas marcas são chamadas de metilação do DNA. Os pesquisadores farão uma “varredura” no DNA em busca de tais alterações, processo conhecido como metiloma. Cada análise possibilitará a investigação de aproximadamente 2,5 milhões de regiões no DNA de cada participante.

Na terceira etapa, partindo do mesmo pressuposto das marcas do DNA pela violência ou pelo uso da droga, os pesquisadores contam com um percentual de usuários portadores do vírus HIV, cujas amostras estão no mesmo biorepositório. Neste processo, o objetivo é identificar se a presença do vírus pode, de alguma forma, prejudicar os mecanismos de controle de consumo, dificultando os tratamentos. “Sabemos muito pouco sobre as causas da dependência ao crack, apesar de ser um problema grave em nosso país. Mais que do ponto de vista da causalidade, a pergunta é: que fatores contribuem para uma pessoa não parar de consumir crack? Através de quais mecanismos biológicos a violência e o HIV poderiam impactar esse uso?”, questiona.

O pesquisador ressalta que um dos principais ganhos do estudo é o de revelar novos alvos de intervenção que promovam novos meios de auxiliar o tratamento do usuário de crack. “Este é um projeto de descobertas e não necessariamente testar alvos pré-definidos. Queremos usar a alta tecnologia que dispomos nas duas universidades para investigar detalhadamente essas informações no DNA dos usuários e controles”, revela. Rodrigo ressalta que a união das instituições promove estudos mais detalhados e que permitem maior amplitude do entendimento da dependência. “O que se espera é também contribuir para um grande consórcio de cientistas que estão debruçados na tentativa de revelar os aspectos genéticos do consumo de cocaína, o que só é possível com grandes amostras. Uma parte de nossa pesquisa vai ser parte desse consórcio”. Com os resultados, ele e sua equipe esperam apontar para o desenvolvimento de novas drogas ou tecnologias, implicando, inclusive, políticas de prevenção. “O que vemos, em geral, é uma busca por tratamento quando o uso já está praticamente fora de controle. O trabalho incessante deve ser feito quando a dependência  está se desenvolvendo, ou melhor, antes mesmo de aparecer”.

Além da pesquisa, o acordo de cooperação fechado promoverá a mobilidade acadêmica, com a vinda de alunos e professores da UTHealth e a ida de docentes e alunos da PUCRS à instituição americana.

O levantamento de duas mil amostras no Brasil e o Banco de Cérebros nos EUA

Desde 2010, os pesquisadores do laboratório coordenado por Grassi-Oliveira vêm colhendo as amostras sanguíneas de usuários participantes dos estudos realizados. Estes usuários (500 mulheres e 500 homens) são oriundos de serviços de assistência, fazendas de reabilitação e internação, ambulatórios, entre outros. Além disso, foram elencadas e estocadas 1.000 amostras de controles, ou seja, pessoas na mesma faixa etária (18 – 50 anos) e que não faziam uso de outras drogas ou tinham alguma doença psiquiátrica. Cada um dos mil usuários foi entrevistado por cerca de sete horas, totalizando 7 mil horas de entrevistas. Com informações clínicas, da história de vida de cada um e amostras de sangue, o biorepositório se torna um material completo de informações genéticas, de interação entre ambiente e suas modificações.

O vasto material, a qualidade da equipe e a possibilidade de cooperação fez com que o National Institute on Drug Abuse (NIDA) se interessasse em financiar o projeto. Na Universidade do Texas, um importante complemento espera pelos pesquisadores: um banco com cerca de 25 cérebros de usuários e 25 cérebros de controles cujos familiares aceitaram doar o órgão após o falecimento de seu ente. “Com estes cérebros, teremos condições de mapear se os mesmos marcadores presentes no sangue podem estar presentes também em regiões cerebrais”. As amostras do banco brasileiro serão processadas em um sequenciador de nova geração na universidade texana.

Contexto Brasil – EUA

Segundo o último Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD), realizado em 2012 em todo o território nacional, mais de dois milhões de brasileiros são usuários de crack/cocaína ou já consumiram a droga pelo menos uma vez na vida. Isso coloca o Brasil em uma posição bastante preocupante, representando 20% do consumo mundial. Um dos fatores mais impactantes é que apenas 1% destes usuários procura tratamento. No mesmo ano, o Instituto Nacional de Pesquisa de Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas (Inpad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) divulgou que os Estados Unidos possuem 4,1 milhões de usuários. Números que preocupam os pesquisadores, que uniram esforços a fim de conhecer mais a fundo as interações entre os fatores genéticos e ambientais envolvidos no consumo de crack nos dois países.

Veja quem participa da pesquisa: 

Rodrigo Grassi-Oliveira, PhD – coordenador (InsCer e PUCRS)

Joy Schimitz , PhD – coordenadora (UTHealth)

Consuelo Walss-Bass – PhD – coordenadora (UTHealth)

Zhongming Zhao, PhD – pesquisador associado (UTHealth)

Sabrina Esteves de Matos Almeida, PhD – pesquisadora associada (UFRGS)

Madhavi Reddy, PhD – pesquisadora associada (UTHealth)

Claiton Henrique Dotto Bau, PhD – pesquisador associado (UFRGS)

Diego Luiz Rovaris, PhD – aluno de pós-doutorado (UFRGS)

Breno Sanvicente-Vieira, MSc – aluno de doutorado (PUCRS)

Thiago Wendt Viola, MSc – aluno de doutorado (PUCRS)

 

Foto: Bruno Todeschini/ASCOM/PUCRS