• 3D male figure with pixelated brain depicting mental health problems

No setembro Lilás, mês de conscientização sobre o mal de Alzheimer, o neurologista e pesquisador do InsCer Dr. Lucas Schilling fala sobre a doença e os sinais que acendem o alerta. Se você conhece ou é familiar de uma pessoa que apresenta os sintomas, fique atento e procure um médico para esclarecer o que se passa com essa pessoa, além de auxiliar o idoso nessa condição. 

“Nos dois últimos séculos, a sociedade moderna vivenciou uma das mais importantes mudanças evolutivas da história da humanidade com um crescimento exponencial da expectativa de vida da população. Tal fenômeno tem gerado grandes alterações nas pirâmides populacionais em todo o mundo, com um progressivo aumento da população idosa. Dados do Global AgeWatch de 2015 apontam que há mais de 900 milhões de indivíduos no mundo com mais de 60 anos, e até 2030 esse número deve chegar a 1 bilhão e 400 mil pessoas. Somente no Brasil, temos 24 milhões de pessoas acima dos 60. Uma das conseqüências de maior impacto deste processo demográfico é o aumento na incidência e prevalência das doenças ligadas ao envelhecimento, situação em que ocorre um acúmulo de modificações deletérias em células e tecidos que aumentam o risco de doenças. Neste cenário, observa-se um importante aumento nas condições biológicas chamadas de neurodegenerativas; situação em que ocorre a perda progressiva de neurônios no sistema nervoso. Dentre as condições neurodegenerativas, existem alguns quadros que podem levar alterações cognitivas e em casos mais severos, à demência, onde há um comprometimento da funcionalidade e autonomia do indivíduo.

A doença de Alzheimer é a principal condição neurodegenerativa que incide sobre esse grupo populacional, apresentando um grande impacto tanto para o indivíduo que padece desta enfermidade, quanto para a família e a sociedade onde ele está inserido. Tal situação leva a um crescente interesse da comunidade científica na busca de uma melhor compreensão de todos os aspectos e mecanismos associados a este quadro; visando o desenvolvimento de terapias mais efetivas e modificadoras da história natural desta doença.

Até alguns anos atrás, o diagnóstico clínico da Doença de Alzheimer era realizado em apenas em pacientes em fases avançadas, com importante comprometimento cognitivo. Atualmente, através de importantes avanços científicos na compreensão dos mecanismos e evolução da doença, a Doença de Alzheimer passou a ser conceitualizada como um processo patológico cerebral progressivo, com diferentes estágios clínicos associados a diferentes alterações cerebrais, como acúmulo da proteína de β-amiloide no córtex e de emaranhados neurofibrilares compostos pela proteína TAU nos neurônios.

Os principais sintomas clínicos da doença são alterações das funções cognitivas, como memória – onde se concentram a maioria das dificuldades dos pacientes –, linguagem, atenção e função executiva (responsável pelo planejamento e execução de tarefas). Tais alterações da memória podem se manifestar com a dificuldade do pacientes em gravar alguma informação ou notícia, ou contar a mesma história repetidas vezes pois não se recorda de já o ter feito. Sob o ponto de vista dos outros domínio cognitivos, o paciente pode ter dificuldade em encontrar palavras ou termos que expressem o que deseja comunicar; bem como atrapalhar-se com tarefas e compromissos no dia-dia; necessitando de auxílio para realização de algumas atividades cotidianas, como pagar contas, organizar sua agenda e planejar e executar a sua rotina de forma independente.

Muitas vezes, tais sintomas podem não ser percebidos ou não serem considerados relevantes pelo pacientes e seus familiares, pois frequentemente são interpretados como parte do processo normal de envelhecimento. Entretanto, no momento em que tais queixas passam a serem notadas, já é aconselhável procurar atendimento. Através de uma avaliação inicial cuidadosa e testes que podem ser realizados na própria consulta, é possível ter uma ideia de como o cérebro deste individuo está funcionando, e caso se detecte algum tipo de alteração encaminhar para a realização de exames e de uma investigação mais completa e específica. Caso seja percebido que os sintomas do paciente realmente estão associados a alguma enfermidade, como a Doença de Alzheimer, existem tratamentos para minimizar os sintomas e desacelerar a doença; e é importante frisar que as medicações e outras intervenções, como reabilitação cognitiva, apresentam melhores resultados quando iniciados de forma precoce.”

O que está sendo feito no InsCer – Alzheimer’s Team e SuperIdosos

Instigado pelos mistérios e pela crescente importância da Doença de Alzheimer no Brasil e no mundo, o Instituto do Cérebro conta com um grupo especializado em neurodegeneração cerebral: o Alzheimer’s Team. O grupo é liderado pelo Prof. Dr. Jaderson Costa da Costa, diretor do InsCer e vice-reitor da PUCRS, e reúne-se a cada 2 semanas com foco no estudo da Doença de Alzheimer através de projetos de pesquisa clínico e pré-clínico. Um grande diferencial do grupo é o trabalho em equipe interdisciplinar, envolvendo estudantes de pós-graduação, físicos, químicos, farmacêuticos, bioquímicos, matemáticos, biólogos, neuropsicólogos e médicos. Nas reuniões são abordados tópicos relevantes para a pesquisa em novos biomarcadores da doença, através de neuroimagem estrutural (Ressonância magnética) e funcional, além do desenvolvimento de radiofármacos que auxiliam o diagnóstico dessa patologia, como o PET-CT associado ao PIB-C11 e FDG.

Diante da mesma perspectiva populacional e de incidência da doença, mas com interesse especial em comparar esses idosos com a população que apresenta declínio cognitivo, o Instituto do Cérebro uniu pesquisadores de múltiplas áreas como medicina, psicologia, física, engenharia, farmácia, matemática, entre outras, com o objetivo de pesquisar sobre o envelhecimento saudável e supersaudável. No estudo SuperIdosos, o grupo quer descobrir quais são os mecanismos neurais que permitem que esses indivíduos cheguem a uma determinada fase da vida com uma capacidade cognitiva muito superior à média. As descobertas dessa pesquisa serão aplicadas a pacientes com neurodegeneração. Para tanto, os superIdosos são avaliados com testes neuropsicológicos para avaliar as funções mentais, classificando esse grupo em diversas funções: atenção, memória, função executiva, entre outras. Ao participarem da pesquisa, os idosos passam por testes psicológicos e, na sequência, são submetidos a exames de imagem: um de ressonância magnética e dois de PET/CT (tomografia computadorizada por emissão de pósitrons).